Como tratar da vida e obra de 4 proeminentes pensadores e idealistas em conjunto como a de Luis Gama, André Rebouças, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco, a respeito de assuntos tão marcantes como a Escravidão até chegar ao abolicionismo?
Tarefa não tão fácil ainda mais quando a proposta é transcorrer por estes temas sem primeiro esta sob as lentes de movimentos negros ou a movimentos monárquicos (o que tentarei o máximo possível ser imparcial) e segundo porque cada um teve suas particularidades e diferenças.
Um exemplo disso que começarei a tratar neste artigo é a de Luis Gama que era contrário a monarquia e considerado por muitos o maior abolicionista do Brasil, mas antes devemos adentrar sobre o contexto histórico que regia aquela época.
Para isso dividirei em dois blocos: Movimento emancipacionista e o início de fato dos movimentos Abolicionistas que começaram a incutir de 1879 á 1888.
Porque é necessário estabelecer esta linha divisória? Por questões sociais e políticas que permeariam os dois blocos.
O primeiro se antecederia pela conquista de leis importantes que minariam o poder econômico gradual de alguns produtores e proprietários de escravos, como a própria Lei Eusébio de Queirós sendo endossada pela Lei Nabuco de Araújo que intensificaria a repressão ao tráfico de escravos atribuído a Marinha a função de incriminar e julgar quem descumprisse a lei Eusébio.
Anos mais tarde em 1871 foi inserida a Lei do Ventre Livre (uma lei cujo o objetivo era limitar a duração da escravidão por meio de concessão de alforrias á crianças nascidas de mães escravas no Brasil) que teve como base inspiradora uma série de propostas apresentadas pelo Visconde de São Vicente em 1866, porém, como naquele mesmo ano a Guerra do Paraguai chegaria ao seu ápice, todas as movimentações do governo para acelerar o processo emancipatório da escravidão resfriaria.
Única decisão tomada durante o tempo de guerra foi a proibição dos leilões de escravos.
Um dos entraves no pós guerra seria como articular tal processo emancipatório, a brecha que viram seria portanto de forma gradativa sem comprometer o sistema econômico, pois infelizmente a base da nossa economia ainda era provida do trabalho escravo, portanto para tal transição requereria tempo tornando- se o sistema escravocrata no Brasil como o que teria maior longevidade na América.
Luís Gama (1830- 1882)
Dado de forma bem resumida sobre o contexto dos anos 60 e início dos anos 70 do século XIX
recorremos sobre um personagem ilustre de tal época e algumas considerações minhas pois a esta altura existem centenas de publicações a seu respeito, não obstante tentarei propor de forma bem apanhada e com outras considerações.
Das quatro proeminências que retratarei, Gama foi o único deles que passou parte de sua juventude como escravo sendo que até os seus 17 anos permaneceria analfabeto. O grande pulo do gato em sua vida se deu quando ele conquistou sua própria liberdade judicialmente e passou a advogar em defesa dos negros cativos ou pobres como Raul Pompéia (1863- 1895) e outros o descreveria como o Apóstolo negro da abolição. Há um estimativa de Luis Gama ter libertado do cativeiro mais de 500 escravos, porém não há outro documento que comprove a não ser por sua carta autobiográfica endereçada a Lúcio de Mendonça seu amigo e Jornalista.
A polêmica
É ai que entrarei em um campo pouco abordado e controverso a respeito da história de sua história e de sua mãe: Luiza Mahin.
Dentre tudo que está disperso na internet é de uma extrema felicidade quando você entre várias pesquisas se depara com um achado interessante. Portanto para corroborar com o que direi aqui estará intrinsecamente ligado com a publicação da professora Doutoranda Dulcilei da Conceição Lima no seu trabalho: Luiza Mahin: Estudo sobre a construção de um mito libertário.
Dois anos antes de seu falecimento Luis Gama ainda em sua carta autobiográfica a Lúcio Mendonça
descreve os trejeitos de sua mãe, Luiza Mahin que seria uma africana de origem Nagô, livre e pagã, recusando o batismo cristão. Sua figura seria canonizada tempos depois pelo movimento negro, mas bem antes disso com o surgimento de vários conteúdos impressos via romances ou publicações, endossaria o desenvolvimento de sua mitificação até os dias atuais.
Segundo a autora, na década de 1980 as ativistas do Movimento negro unificado buscaram em suas ancestrais exemplos de luta e resistência que pudessem erigir como simbolo e enfatiza que pela mãos das mesmas ligado a este movimento, o mito foi reelaborado como produto da imaginação simbólica, apropriado pela memória social.
Na sua sua carta, Luis Gama faz alguns apontamentos a respeito de sua mãe, que tempos depois seria levantado contradições sobre a real existência dela ou se factivelmente seria uma figura criada por ele.
A principal evidência encontrada esta em uma das obras de Gama: Minha Mãe de 1861, na qual ele ressalta a fé cristã da mãe e toda sua religiosidade o que o levaria a contradição em sua carta. Mahin também revive na obra Malês: A insurreição das Senzalas (1933) de Pedro Calmon (1902- 1985) que romanceia a Revolta dos Malês (ocorrida em 25 de janeiro de 1835) construindo também sobre ela uma imagem mitificada já que dado pelo autor o fracasso do levante a ela, por ter sido ela quem denunciou o plano dos revoltosos, foi sua participação no levante que constituiria sua imagem de valor de mulher negra no Brasil. Nos anos 70 do século XX, o autor seguido por outro, Arthur Ramos fizeram uma recontextualização daquilo que escreveram 40 anos atrás, situando Luiza Mahin como simbolo da luta da mulher negra, por ter segundo os mesmos, feito de sua casa um dos principais espaços para reuniões dos Malês para a preparação da revolta e estando ela mesma entre as lideranças da rebelião.
Obviamente que isto foi incorporado pelo segmento feminino do movimento negro, posta em prisão, ela e os demais desapareceriam. Criando assim em torno da personagem sua autonomia própria.
Segundo a Professora Doutoranda Dulcilei que estou usando como base para pontos chaves deste texto enfatiza que em 2006, Ana maria Gonçalves publicou 'Um defeito de cor, uma biografia de Luiza Mahin que contempla, desde sua saída da África como escrava para o Brasil, com cinco anos de idade, até sua vida no continente após seu retorno. Vale reforçar como a mesma professora fez que não pretende discutir por quais motivos Gama teria inventado a personagem, mas analisar a sua usurpação pelo seguimento feminino do movimento negro e tratar das reelaborações que garantiram a manutenção da Mahin no imaginário e na memória afro- brasileira acerca da imaginação simbólica e memória coletiva.
Ainda sobre os anos 70, com o sentimento democrático e as movimentações populares pedindo por redemocratização, o movimento negro se reorganizou. Nesse momento foi fundado o movimento Negro unificado, que entre outras medidas, optou por celebrar a memória de Zumbi dos Palmares ( Outro personagem mitificado) como principal referencial histórico na luta do negro brasileiro. De tal modo que o dia 20 de novembro (suposto dia que seria a da morte de Zumbi) passou a ser celebrado como Dia da consciência Negra em contraposição ao dia 13 de maio, tratado por eles como o dia em que a monarquia brasileira concedeu a liberdade aos escravizados.
Reparem como eles usaram o conceito de Mito muito bem em todos os personagens, é algo similar com o qual eu abordei no meu ultimo texto para este Blog sobre o conceito de Herói/ Mito pela semiótica de Umberto Eco. Semiótica = Que estuda o processo de sinais, signos, símbolos, alegoria, metáfora, analogia, semelhança e comunicação. Existem outros das quais não lembro no momento.
Heróis são símbolos poderosos, encarnações de idéias e aspirações, apoiado de uma identificação coletiva e nesta memória coletiva há o processo de adaptação pois os envios do presente que vão permear a memória de encontro com a dinâmica social. Um bom exemplo disso é o de Zumbi dos Palmares, ou de como a professora bem diz, da suposta participação de Luiza Mahin no levante que se garantirá sua manutenção na memória coletiva.
Como se cria um mito então? da sua imaginação, se efetiva da crença, intuição ou da fé é através assim que o Mito pode se opor aos fatos ou aos registros históricos que se contrapõem.
Portanto o caso de Mahin evoca uma reivindicação de uma memória coletiva ao qual os movimentos interessados buscaram a construção dela com os atributos necessários para garantir a coesão, a própria existência do movimento, abrindo espaço para reforçarem ideais até serem engolidos nos dias de hoje por questões de lutas classes de essência puramente marxista.
Ou seja a lenda, no entanto, não sobrevive ao menor escrutínio dos fatos, o mito em torno de seu nome só sobrevive a uma profunda ignorância, típica da nossa má formação intelectual que ainda confunde indignação estéril contra a pobreza com defesa de grandes ideias.
Aos olhos da história que não se deixa contaminar com propagandas meticulosamente ideológicas, longe das obras de ficção compromissadas com a manutenção do que há de mais atrasado no nosso pensamento contraditoriamente progressista.
Próximo Capítulo André Rebouças
“Compreenda Meu Santinho que estou cansadíssimo do mundo, da vida, e sobretudo da tal civilização... Espero que Deus conceda-me o Fim n’África e que possa ali alcançar o repouso eterno.
André Rebouças.


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