Pretende-se nesta singela pesquisa conjugar esforços para abordar aspectos históricos enfatizados a época da escravidão, isto é, cruzando tais períodos com a proximidade identitária as nomenclaturas de fases dentro do sistema de graduação que norteia a técnica e descendência Capitães da Areia.
Propor algo novo, é sempre desafiante, visto com muito ceticismo e resistência. Porém é necessário ter uma discussão saudável sobre o futuro da capoeira, da técnica e de seus meios, se já não seria a hora por exemplo, de pensarmos em uma nova reformulação sem descaracterizar seus fundamentos, pondo em prática uma reflexão repaginada de tudo o que vimos até então.
Reformular, leia-se acrescentar, pois uma das ideias principais se não a principal é contribuir ainda mais para a construção de uma consciência voltada a preservação de suas origens e ultimamente muitos grupos vem se perdendo nesse propósito.
Já não é de hoje que muitos grupos de capoeira da descendência da capitães da areia vem adotando em seus sistemas de graduações, algo idêntico ao que se ver em campos universitários.
Vem se tornando mais frequente a transição de outros grupos de outras técnicas para a capitães, o que até aqui não há mal algum, é até bom conquistarmos novos nichos e espaços no ceio da capoeira, entretanto se não há uma boa adaptação, tudo pode vim a se tornar um verdadeiro embaraço.
E é o que se começa a desenhar pelo menos aqui em São Paulo. Capoeiristas se formando em um muito curto espaço de tempo, negligenciando algumas das fases históricas, repelindo ás vezes o Liberto por aluno avançado. O Reflexivo pelo estagiário, instrutor.
Não pretende-se que essa pesquisa saia de seu foco, muito menos ensinar a qualquer grupo coercivamente o que é certo ou errado. A intenção não é essa, somente mostrar essa quebra de paradigma que vem ganhando novos morros a cada geração.
Anteriormente acima, foi falado sobre o futuro que é indiretamente dedicado a essa pesquisa também. Não é preciso ser bom de conta e prever que daqui nos próximos 10 ou 20 anos terá um volume exponencial de formados e mestres, superando qualquer marcar anterior desde a criação da Capitães da areia em 1971.
Um exemplo pessoal: Estamos no ano de 2018, o que vos escreve é um Reflexivo, aluno de Mestre Okan que é formado de Mestre Messias, mestre este que é formado de Mestre Bradesco. Três gerações que levou em torno 20 anos para que isso acontecesse. No futuro como controlar essa demanda alta que cresce a cada ano? Sabendo também que por razões financeiras alguns mestres formam seus alunos em até ou menos que quatro anos, por exercer agora a sua profissão mais em academias de musculação e derivados. Antes Mestres tinham outras atribuições, e a capoeira via-se como um Hobby ou um lazer, hoje cada vez mais ela é a profissão de muitos o que acaba tornando-se consequentemente um facilitador multiplico de alunos/formados.
Voltando ao tema central e finalmente a ser discutido, é o início de um estudo sobre a possível implantação de mais duas ou três graduações dentro do atual sistema de graduação da técnica, afim de não só organizar e melhor instruir e distribuir as futuras gerações, mas como foi dito de faze-los despertar mais para o campo histórico e do resgate cultural.
O que irá ser abordado aqui tem como base o livro " O que é Capoeira" de Mestre Anande.
Nele há uma passagem que diz: " Estudando a história da capoeira, descobrimos que ela passou, até hoje, por cinco fases importantes". Que resumidamente são: A fase do início da escravidão, a fase áurea dos Quilombos, a última década do império, começo da abolição e início da república, a fase de liberação na ditadura de Vargas e por último sua institucionalização com o surgimento das federações.
Sabendo que o sistema de graduações foram baseados nas transformações sociais sofridas pelos negros durante e após a escravidão, formam-se as nomenclaturas pelas quais conhecemos hoje como: Escravo, fugitivo, Quilombola, Vagante, Liberto, Reflexivo e Livre.
Agora entramos na parte fundamental dessa pesquisa: A atribuição de algumas passagens históricas intimamente ligadas ao tempo da escravidão e que requer reflexão.
O nome das fases históricas em questão seriam: Insurgente, Malta e Migrante
Escravo: Tendo o negro sido raptado da África e levado na condição de escravo para trabalhar no Brasil
Fugitivo: Segundo o livro de Mestre Anande "O que é capoeira" Relaciona-se ao percurso de fuga dos negros fugitivos rumo aos quilombos.
Quilombola: Período de resistência contra seus opressores e governos.
Vagante: Quando os quilombos foram destruídos por seus algozes muitos tiveram que fugir, começando a vagar sem rumo mata ou não a dentro, tendo muitas vezes que se esconder de seus opressores
INSURGENTE: Representa todas as revoltas e insurgências onde os negros estiveram envolvidos ou foram protagonistas em seus papéis. A necessidade dela se deve a ausência de uma lacuna não preenchida na história dita até aqui pela capitães da Areia.
Essa lacuna se deve ao fato de que desde o desmembramento dos grandes quilombos entre eles Palmares que sem liderança militar se desfez por completo por volta de 1710 até o fim do período regencial no século seguinte, muitas transformações sociais começaram a ocorrer pelo Brasil, entre as quais o escravo, ou escravo liberto tiveram participação direta ou indireta.
Algumas delas foram: Conjuração Baiana 1798, Revolta do Guanais 1832, Revolta de Malês 1835, Sabinada 1837, Balaiada 1838. Portanto seguir do vagante para o Liberto é pular um processo histórico de muita importância, pois antes de se tornar um liberto o negro escravo teve que lutar mais do que lutou para fugir aos quilombos. Isso sem contar a participação dos escravos na revolta dos mercenários em 1828.
Mesmo que adote um novo nome a nomenclatura, seria muito interessante e coerente simbolizar uma fase histórica empregada a esse período pouco lembrado por nós capoeiristas.
LIBERTO: Fase esta que esta associada durante o processo de libertação dos escravos, das primeiras leis com tendência abolicionista ( BILL ABERDEEN, LEI EUSÉBIO DE QUEIROZ, LEI DO VENTRE LIVRE, LEI DOS SEXAGENÁRIOS),em detrimento com o sistema de comércio escravagista. Bem antes a promulgação da lei áurea já havia a possibilidade do escravo comprar sua carta de alforria porém sempre burocratizado muitos não conseguiam.
MALTA (OPCIONAL) : Período de extrema importância para a capoeira, segundo o próprio Mestre Anande conta no já citado livro "O que é capoeira" os negros caminham cada vez mais para a marginalidade. Sem condições de trabalho e muitos na miséria passa a ser considerado um problema social sem solução.
Com o início da república parece que a única preocupação das autoridades foi proibir a capoeira, talvez pensando em algum resultado imediato. Ledo engano.
A ideia da nomenclatura, vem da análise de que a fase de liberto por estar correlacionada as maltas no livro, crie-se uma confusão de significados mais profundos. Enquanto o Liberto ao que o nome já sugere, remete mais ao período abolicionista, um período conturbado de transições, porém ainda sobre a esfera de poder monárquica.
A Malta vem de outro viés; o lenço de seda e todas as suas indumentárias além é claro das suas grandes façanhas é expressamente correlacionado á era Republicana das grandes perseguições. A fase Malta é o caminho a ser trilhado na cronologia das fases históricas até chegar ao momento de reflexão (Reflexivo) A fase é associada ao período de marginalização e descrença do negro, do combate estando muitas vezes mais correlacionado ao elemento fogo e o Liberto por mais irônico que seja a uma sensação de falsa liberdade.
REFLEXIVO: 1- Relaciona-se ao períodos de liberação da capoeira na década de 30 e a da institucionalização da capoeira na década de 70 no século passado.
2- Solicitando a fazer uma reflexão sobre tudo o que envolve a prática da capoeira, no sentido de analisar o antes e depois do praticante
MIGRANTE: Relaciona-se a importância da imigração interna no Brasil, dos filhos de ex- escravos ou de descendentes de escravos saindo de estados como Pernambuco, Alagoas, Bahia, Paraíba se dirigindo para as grandes metrópoles em busca de oportunidades, isto é, partindo da migração da população rural para o espaço urbano.
Dos diferentes povos que contribuiu para a diversidade que temos hoje na capoeira. O que seria de nós se Mestre Anande e outros capoeiristas permanecessem em Itabuna/Bahia? Percebe-se portanto a relevância, principalmente como forma de homenagem á capoeira paulista.
Pode se considerar também esse processo migratório com o surgimento das favelas que no século XIX eram chamados de bairros africanos (Devido ser o lugar onde os ex-escravos sem terras e sem condições de trabalho viviam) e hoje como são chamados de aglomerados subnormais devido ao problema mais que centenário da desigualdade social.
LIVRE: Conclusão do processo de formação. O aluno passa a ser um discipulo da capoeira, um instrumento de libertação, um livre. -- Livro "O que é capoeira"
CAPITÃO DA AREIA: Homenagem a técnica criada por Mestre Anande e aos 5 primeiros mestres da Capitães da Areia que são: Mestres Demir (em memória) Valdir, Joanito Baiano, Carioca e Pessoa (em memória) É uma nomenclatura que já diversos grupos da linhagem de Mestre Bradesco utilizam. É uma forma de reforçar e evidenciar nossa técnica perante outros professores e mestres de outras linhagens que se utilizam de nomenclaturas acadêmicas.
Lembrando também que durante um tempo criou-se um hábito de muitos capoeiristas se denominarem apenas como descendentes da Farol da Barra, que independente de julgar certo ou errado, de má fé ou não, o nome capitães da areia teve o seu brio ofuscado que só veio a se reerguer durante os últimos 10 anos, tendo um sentimento maior de gratidão e reconhecimento por todos da descendência. E a nomenclatura de capitão da areia se confunde justamente com essa época de maior evidência e prestígio.
MESTRE: Alcance da Sabedoria
Continua...

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